Eles brigam; o Brasil e os brasileiros pagam a conta
- A ameaça de sanção anunciada por Donald Trump na quarta-feira (9) traduz o
quanto a polarização política pode ser prejudicial ao Brasil. Enquanto
petistas e bolsonaristas brigam, quem sofre as consequências mais graves e
injustas são os brasileiros. - O tarifaço alardeado pelo presidente americano para entrar em vigor a partir de
1° de agosto avilta nossa soberania e representa uma agressão em termos
econômicos e institucionais ao Brasil. É, pois, inaceitável. - Não há mínimas razões econômicas que justifiquem impor 50% de tarifa de
importação ao Brasil, a mais alta aplicada a todos os fornecedores globais dos
EUA. De maneira recorrente, ano após ano, mais compramos do que
vendemos a eles. - Em 2024, o Brasil exportou US$ 41 bilhões aos EUA, com saldo negativo de
US$ 284 milhões. O mercado americano é o segundo principal destino das
vendas externas brasileiras (em boa parte, bens industriais), respondendo por
12% do total, atrás apenas da China, cuja fatia é crescente. - Todas as evidências deixam claro que a sanção é política, e não econômica.
Trump busca interferir em questões jurídicas internas que fogem à alçada da
diplomacia ou do comércio entre os países, numa intromissão inadmissível. - No entanto, a ameaça do presidente americano surge em meio à escalada de
hostilidades do governo Lula contra os EUA. Faltou prudência e tem sobrado
ideologia na diplomacia brasileira (ou, mais precisamente, na falta dela) ao
lidar com a nação mais poderosa do mundo. - Desde que Trump reassumiu a Casa Branca, em janeiro, o presidente
brasileiro não manteve nenhum contato com o americano – ao contrário
de todas as demais economias do G-20, inclusive China e Índia, que se
engajaram em negociações comerciais com os EUA. - Na reunião dos Brics encerrada na semana passada no Rio, Lula fez pior e
voltou a vocalizar propostas antagônicas às dos EUA, enquanto a diplomacia
brasileira avalizou uma declaração final cheia de afagos a regimes
autoritários e anti-Ocidente, como o Irã e a Rússia.
- No outro extremo político, o bolsonarismo parece colocar os interesses de
Jair Bolsonaro acima de tudo, a ponto de insuflar o ataque de Trump contra o
nosso país e contra instituições do nosso Estado democrático de direito, algo
que só interessa ao ex-presidente. É absurdo. - As consequências recairão sobre nossos produtores, como os do agro, e o povo
brasileiro em forma de menor crescimento, geração de renda e emprego, mais
inflação e manutenção das proibitivas taxas de juros atuais. Estima-se perda
anual de 110 mil empregos e US$ 20 bilhões nas exportações brasileiras aos EUA. - Para lidar com a ameaça de Trump, a única alternativa é a negociação, sem
escalar para uma guerra tarifária em que o Brasil perderá ainda mais. Retaliar
significará produzir prejuízos ainda maiores para nossa população,
sobretudo na forma de comida mais cara. - Numa hora difícil como esta, espera-se do presidente brasileiro que deixe, de
uma vez por todas, de agir como militante político e aja como chefe da
nação, na defesa de todos os brasileiros e não apenas de seus companheiros. - Mais que nunca, a hora é de equilíbrio, diálogo e responsabilidade. Nunca
os extremos fizeram tão mal, e de maneira tão evidente, aos interesses do povo
brasileiro. A solução está no caminho do centro, bem longe da polarização.
Saldo da balança comercial Brasil-EUA (em US$ bilhões)

Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
COMIDA MAIS CARA
Inflação persiste e continua a encarecer alimentos
- A inflação brasileira continua acima das metas definidas pelo Conselho
Monetário Nacional (CMN). Na nova sistemática de monitoramento adotada, o
IPCA de junho forçou o Banco Central a explicar o aumento reiterado dos
preços, por se repetir há seis meses consecutivos. - Mas a alta é ainda mais persistente. Desde outubro do ano passado, o índice
acumulado em 12 meses está acima do limite de tolerância fixado para a
inflação geral do país, ou seja, 4,5% ao ano. - No acumulado até junho, o IPCA atingiu 5,35%, conforme divulgado pelo IBGE
na última quinta-feira (10). Para um primeiro semestre, a variação (de 2,99%) é
a maior desde 2022. - Novamente, alimentos estão entre os itens que mais pesaram no bolso dos
consumidores brasileiros. Comer fora de casa está custando 7,8% mais caro
do que há um ano – em cidades como Porto Alegre, a variação chega a 9,15%. - Mas os aumentos estão disseminados: mais de 70% dos preços
acompanhados pelo IBGE subiram nos últimos 12 meses acima do percentual
máximo de inflação tolerado pelo CMN; a energia elétrica, por exemplo, já
encareceu quase 7% neste ano. - Desde que o regime de metas passou a vigorar, em 1999, a inflação oficial
brasileira extrapolou o teto em oito ocasiões, sendo três delas nos últimos
quatro anos, incluindo 2024. É sinal de uma persistência perigosa. - Segundo o Banco Central, entre os fatores que explicam os aumentos da
inflação está a gastança do governo Lula, que força a alta dos juros e
encarece a rolagem da dívida pública, que custará R$ 1 trilhão aos brasileiros
neste ano. - Créditos subsidiados, que somarão R$ 587 bilhões ou quase 5% do PIB neste
ano, também comprometem a eficácia da política monetária, ou seja, acabam
por exigir juros mais altos. - A inflação é mais prejudicial aos brasileiros mais pobres, que consomem a maior
parte da sua renda com alimentos e bens de primeira necessidade. A leniência
com a carestia mantém-se como marca perversa do governo do PT.