Edição 62

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Eles brigam; o Brasil e os brasileiros pagam a conta

  • A ameaça de sanção anunciada por Donald Trump na quarta-feira (9) traduz o
    quanto a polarização política pode ser prejudicial ao Brasil. Enquanto
    petistas e bolsonaristas brigam, quem sofre as consequências mais graves e
    injustas são os brasileiros.
  • O tarifaço alardeado pelo presidente americano para entrar em vigor a partir de
    1° de agosto avilta nossa soberania e representa uma agressão em termos
    econômicos e institucionais ao Brasil. É, pois, inaceitável.
  • Não há mínimas razões econômicas que justifiquem impor 50% de tarifa de
    importação ao Brasil, a mais alta aplicada a todos os fornecedores globais dos
    EUA. De maneira recorrente, ano após ano, mais compramos do que
    vendemos a eles.
  • Em 2024, o Brasil exportou US$ 41 bilhões aos EUA, com saldo negativo de
    US$ 284 milhões. O mercado americano é o segundo principal destino das
    vendas externas brasileiras (em boa parte, bens industriais), respondendo por
    12% do total, atrás apenas da China, cuja fatia é crescente.
  • Todas as evidências deixam claro que a sanção é política, e não econômica.
    Trump busca interferir em questões jurídicas internas que fogem à alçada da
    diplomacia ou do comércio entre os países, numa intromissão inadmissível.
  • No entanto, a ameaça do presidente americano surge em meio à escalada de
    hostilidades do governo Lula contra os EUA. Faltou prudência e tem sobrado
    ideologia na diplomacia brasileira (ou, mais precisamente, na falta dela) ao
    lidar com a nação mais poderosa do mundo.
  • Desde que Trump reassumiu a Casa Branca, em janeiro, o presidente
    brasileiro não manteve nenhum contato com o americano – ao contrário
    de todas as demais economias do G-20, inclusive China e Índia, que se
    engajaram em negociações comerciais com os EUA.
  • Na reunião dos Brics encerrada na semana passada no Rio, Lula fez pior e
    voltou a vocalizar propostas antagônicas às dos EUA, enquanto a diplomacia
    brasileira avalizou uma declaração final cheia de afagos a regimes
    autoritários e anti-Ocidente, como o Irã e a Rússia.
  • No outro extremo político, o bolsonarismo parece colocar os interesses de
    Jair Bolsonaro acima de tudo, a ponto de insuflar o ataque de Trump contra o
    nosso país e contra instituições do nosso Estado democrático de direito, algo
    que só interessa ao ex-presidente. É absurdo.
  • As consequências recairão sobre nossos produtores, como os do agro, e o povo
    brasileiro em forma de menor crescimento, geração de renda e emprego, mais
    inflação e manutenção das proibitivas taxas de juros atuais. Estima-se perda
    anual de 110 mil empregos e US$ 20 bilhões nas exportações brasileiras aos EUA.
  • Para lidar com a ameaça de Trump, a única alternativa é a negociação, sem
    escalar para uma guerra tarifária em que o Brasil perderá ainda mais. Retaliar
    significará produzir prejuízos ainda maiores para nossa população,
    sobretudo na forma de comida mais cara.
  • Numa hora difícil como esta, espera-se do presidente brasileiro que deixe, de
    uma vez por todas, de agir como militante político e aja como chefe da
    nação, na defesa de todos os brasileiros e não apenas de seus companheiros.
  • Mais que nunca, a hora é de equilíbrio, diálogo e responsabilidade. Nunca
    os extremos fizeram tão mal, e de maneira tão evidente, aos interesses do povo
    brasileiro. A solução está no caminho do centro, bem longe da polarização.

Saldo da balança comercial Brasil-EUA (em US$ bilhões)

Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.


COMIDA MAIS CARA

Inflação persiste e continua a encarecer alimentos

  • A inflação brasileira continua acima das metas definidas pelo Conselho
    Monetário Nacional (CMN). Na nova sistemática de monitoramento adotada, o
    IPCA de junho forçou o Banco Central a explicar o aumento reiterado dos
    preços, por se repetir há seis meses consecutivos.
  • Mas a alta é ainda mais persistente. Desde outubro do ano passado, o índice
    acumulado em 12 meses está acima do limite de tolerância fixado para a
    inflação geral do país, ou seja, 4,5% ao ano.
  • No acumulado até junho, o IPCA atingiu 5,35%, conforme divulgado pelo IBGE
    na última quinta-feira (10). Para um primeiro semestre, a variação (de 2,99%) é
    a maior desde 2022.
  • Novamente, alimentos estão entre os itens que mais pesaram no bolso dos
    consumidores brasileiros. Comer fora de casa está custando 7,8% mais caro
    do que há um ano – em cidades como Porto Alegre, a variação chega a 9,15%.
  • Mas os aumentos estão disseminados: mais de 70% dos preços
    acompanhados pelo IBGE subiram nos últimos 12 meses acima do percentual
    máximo de inflação tolerado pelo CMN; a energia elétrica, por exemplo, já
    encareceu quase 7% neste ano.
  • Desde que o regime de metas passou a vigorar, em 1999, a inflação oficial
    brasileira extrapolou o teto em oito ocasiões, sendo três delas nos últimos
    quatro anos, incluindo 2024. É sinal de uma persistência perigosa.
  • Segundo o Banco Central, entre os fatores que explicam os aumentos da
    inflação está a gastança do governo Lula, que força a alta dos juros e
    encarece a rolagem da dívida pública, que custará R$ 1 trilhão aos brasileiros
    neste ano.
  • Créditos subsidiados, que somarão R$ 587 bilhões ou quase 5% do PIB neste
    ano, também comprometem a eficácia da política monetária, ou seja, acabam
    por exigir juros mais altos.
  • A inflação é mais prejudicial aos brasileiros mais pobres, que consomem a maior
    parte da sua renda com alimentos e bens de primeira necessidade. A leniência
    com a carestia mantém-se como marca perversa do governo do PT.
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