Um país paradão e um cemitério de obras inacabadas

Edição 120
  • Propaganda eleitoral aceita tudo. Nela, os candidatos à presidência da República apresentam um país de sonhos para os eleitores. A distância para a realidade, porém, é quilométrica. O Brasil real não está na TV.
  • Uma boa medida do distanciamento entre o país bem produzido da propaganda e a dura realidade está na carteira de empreendimentos públicos financiados com recursos federais em todo o país. Passam anos e o Brasil continua sendo um cemitério de obras inacabadas.
  • Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), existem hoje 22.414 obras em andamento em todo o país. Dessas, 4.215 estão paralisadas. Trocando em miúdos, significa que, de cada cinco empreendimentos públicos, um está parado.
  • São R$ 16,2 bilhões em recursos públicos desperdiçados. As unidades da federação com, proporcionalmente, mais obras paralisadas são Pará (35,2%) e Maranhão (26,1%). Na outra ponta, São Paulo tem apenas 9,2% dos empreendimentos nesta situação.
  • Entre as obras paralisadas, estão a ferrovia Oeste-Leste (Fiol), na Bahia; a eterna duplicação da BR-381 – conhecida como “rodovia da morte” em função do seu traçado perigoso – entre Belo Horizonte e Caeté (MG) e o Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora.
  • As áreas mais afeitas ao atendimento direto à população são justamente as que mais sofrem com a paralisia. Educação, com 2.102 obras, e saúde, com 1.226, concentram 79% dos empreendimentos empacados.
  • Muitas destas obras compõem o sempre fantasioso Programa de Aceleração do Crescimento. Quando a atual versão do PAC foi anunciada pelo presidente Lula, em agosto de 2023, 5.344 das iniciativas prometidas eram herdadas de gestões petistas anteriores.
  • Na área de infraestrutura, também viceja um deserto de novos investimentos. Segundo levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo no último domingo (20), nada menos que R$ 204 bilhões em projetos ficarão para depois – incluindo rodovias, ferrovias e portos, entre outros.
  • Em ferrovias, só um de oito leilões previstos para este ano ainda tem chance de acontecer até dezembro. Dos 13 leilões de rodovias, apenas metade pode sair do papel. Nos portos, até este mês de setembro, somente três dos 18 certames anunciados ocorreram.
  • Obras não são mero adereço de propaganda eleitoral. Precisam ser a tradução e o retorno que o Estado deve à população dos tributos recordes que ela recolhe. Existem para melhorar a vida das pessoas, e não para virarem poeira em canteiros abandonados pelo país afora.

Situação das obras públicas federais no Brasil

Fonte: Tribunal de Contas da União/Painel de Obras Paralisadas.

Uma agenda para a segurança pública

  • É unanimidade: em todas as pesquisas de opinião, a falta de segurança aparece como a principal preocupação dos brasileiros. Não sem razão. Todos os anos, mais pessoas são assassinadas no país do que em muitas guerras ao redor do mundo somadas.
  • Em 2025, 40.775 pessoas foram mortas no Brasil, ou seja, uma média de 112 por dia. Em termos proporcionais, a taxa de homicídios encontra-se atualmente em 19,1 mortes a cada 100 mil habitantes.
  • Nenhum outro país no mundo tem tanta gente morta, conforme dados da UN System Data Commons. Equivale a dizer, também, que 1 de cada 10 homicídios registrados em todo o mundo acontece no Brasil.
  • Uma das principais razões para a escalada da violência é o domínio do crime organizado sobre territórios do país. De acordo com pesquisa do Datafolha feita em maio, 68 milhões de brasileiros vivem em áreas sob jugo de facções e milícias.
  • O crime avança à medida que o Estado recua. Nesse sentido, a baixa participação do governo federal no combate ao crime serve como impulso para a violência. Recursos que deveriam ser repassados pela União ficam parados em caixa: o Funpen, por exemplo, executou somente 13% do previsto para o ano até agora.
  • Uma agenda para a segurança começa pela maior participação do governo federal, coordenando ações em conjunto com estados e municípios. Isso inclui a organização de bancos de dados unificados para rastrear, prender e punir criminosos.
  • Cabe ao governo federal também proteger os quase 17 mil km de fronteiras do país. É por onde ingressam armas, contrabando e drogas que alimentam o tráfico nas cidades em todo o território brasileiro.
  • Por fim, a punição aos criminosos precisa ser mais severa, as investigações mais eficazes e o sistema penal mais efetivo em manter afastados do convívio social aqueles que hoje mantêm todo um país refém da bandidagem.
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