Mais uma década perdida na educação

Edição 119
  • A educação brasileira não anda. Os resultados do Pisa 2025, divulgados pela OCDE na semana passada, confirmam que o país atravessou uma década inteira sem avanço de aprendizagem – e que toda uma geração passou pelas escolas sem que nada mudasse.
  • Os números são constrangedores. O Brasil somou 409 pontos em ciências, 408 em leitura e 377 em matemática, ante 482, 461 e 463, respectivamente, da média da OCDE. Como 20 pontos equivalem a um ano escolar, nossos jovens estão, em média, até cinco anos atrás dos estudantes dos países ricos.
  • O país estagnou num patamar baixíssimo. Entre os estudantes brasileiros, 43,8% têm resultados abaixo do esperado – ante 29% na OCDE. No topo, apenas dois de cada cem dos nossos alunos alcançam alto desempenho, ante 11,9% dos países desenvolvidos.
  • Por área, a situação não melhora. A disciplina em que os estudantes brasileiros se saem pior é a matemática. De cada dez alunos, sete não atingem o aprendizado mínimo para lidar com números e operações.
  • Nesta área, o país ficou na 71ª posição entre as 89 nações e economias analisadas pelo Pisa. Na América Latina, o Brasil perde, por exemplo, para países como Uruguai, Chile, México, Costa Rica, Peru e Colômbia.
  • Em ciências, os brasileiros figuram em 67º lugar entre 90 países —seis posições abaixo do que haviam alcançado na edição anterior, em 2022. Metade dos nossos alunos não alcança conhecimento mínimo nessa área.
  • O melhor desempenho dos brasileiros é em leitura: 52º lugar entre 89 países com avaliação nesta rodada da comparação global. Mas, de novo, de cada dois estudantes nossos, um não tem habilidade mínima para interpretar e extrair significado de textos simples, como notícias.
  • O Pisa é um estudo comparativo internacional realizado a cada três anos para avaliar o desempenho de alunos de 15 anos em ciências, leitura e matemática. Nesta edição, foi aplicado em 91 países junto a 760 mil jovens – 30 mil deles aqui.
  • A distância entre o Brasil e os demais países avaliados até diminuiu, mas por uma razão negativa: o desempenho dos estudantes da OCDE desabou, segunda a instituição por hábitos que enfraqueceram, sobretudo, as habilidades de leitura.
  • Não é coincidência que a educação no Brasil esteja no mesmíssimo patamar de desempenho de dez anos atrás. O país vive crises atrás de crises, a começar pela recessão do governo Dilma, que implodiu a nossa economia e gerou consequências duradouras em todas as áreas.
  • Avaliações periódicas como o Pisa servem para o país se ver no espelho e buscar dar ao ensino a relevância que merece. Dá trabalho, mas é necessário – e compensa. Sem educação de mais qualidade, vamos continuar eternamente patinando, sem sair do lugar.

Evolução do desempenho do Brasil no Pisa (em pontos)

Fonte: Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico/Pisa 2025.

Uma agenda para a educação brasileira

  • A cada rodada de novos indicadores, confirma-se o que é visível nas salas de aula: a educação brasileira não avança. Isso significa um futuro perdido para próximas gerações e o aumento do fosso que separa nossos estudantes da aprendizagem mínima aceitável.
  • Além do Pisa, exames nacionais recentes atestam o fiasco. À medida em que os alunos progridem, o desempenho piora. Nas séries finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano) e no médio, as metas continuam sem ser atingidas, segundo o Ideb de 2025, divulgado em agosto. É assim desde meados da década passada.
  • A agenda para a educação brasileira deve começar por aproveitar melhor os recursos – que, proporcionalmente ao PIB, até se aproximam de padrões de países ricos. Regiões e escolas mais problemáticas devem ser o alvo, aproveitando que a rede pública perdeu 25% dos alunos nos últimos 20 anos por questões demográficas.
  • Educação que funciona deve ser focada na primeira infância. Hoje, 7 milhões de crianças de 0 a 3 anos estão fora de creches. As metas de atendimento traçadas no Plano Nacional de Educação para 2024 passaram longe de ser atingidas.
  • Por sua vez, as avaliações de desempenho – implantadas no país a partir do governo Fernando Henrique – devem ser frequentes, a fim de orientar as ações necessárias. A educação deve se mover por metas, sempre monitoradas.
  • Entre os maiores desafios está garantir a alfabetização na idade certa e aproximar a sala de aula da realidade. Isso inclui diminuir a evasão: de cada quatro jovens, um não conclui o ensino médio, o que equivale a 8,7 milhões de brasileiros.
  • Educação é política de longo prazo, que nem sempre rende dividendos eleitorais dentro de um mandato. Talvez isso explique por que o ensino brasileiro continua refém da mediocridade. Enquanto o que é ensinado aos que construirão o Brasil do amanhã não se tornar prioridade, o futuro continuará comprometido.

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